Opinião

Trinity House refém da inércia governativa

A antiga Trinity House, na cidade da Horta, é muito mais do que um edifício histórico. É um símbolo de uma época em que a ilha do Faial ocupava um lugar central nas comunicações globais, ligando continentes através de cabos submarinos e projetando o nome da Horta no mundo. Hoje, porém, esse mesmo edifício permanece fechado, sem intervenção visível de manutenção há vários anos, enquanto o tempo e a inação contribuem para a sua degradação devido às infiltrações que vão sendo cada vez mais visíveis. Por incrível que pareça, a inação a que me refiro não se esgota na ausência de um investimento robusto, pelo contrário, refiro-me por exemplo à incúria de se deixar um alçapão aberto que deixou parte da cobertura a descoberto e que claramente contribuiu para a degradação do edifício.

Construída no início do século XX para servir as companhias internacionais de cabos submarinos, a Trinity House representa um dos mais importantes testemunhos da história tecnológica e económica dos Açores. Preservar esta memória não é apenas uma questão de identidade local, mas acima de tudo de valorizar um património com relevância internacional.

Ao longo das últimas décadas, o edifício teve diferentes usos, incluindo funções ligadas à educação, tendo acolhido durante muitos anos uma escola da cidade. Mais recentemente, foi utilizado de forma temporária durante intervenções noutros equipamentos. No entanto, desde 2019 que se encontra interdito por razões de segurança e, desde 2021, permanece sem qualquer utilização.

Este cenário contrasta com os sucessivos anúncios políticos feitos ao longo dos últimos anos. Em 2021, foi lançado um concurso para a reabilitação da cobertura do edifício e anunciada a intenção de avançar com a sua recuperação, transformando-o num núcleo museológico dedicado à história dos cabos submarinos. No entanto, até hoje, essas intervenções não chegaram a ser concretizadas.

Em 2022, foi adjudicado o projeto de execução para a criação do futuro Museu, com um investimento significativo, mas a verdade é que desde então, nada se concretizou.  As verbas previstas em orçamento variaram, e houve mesmo períodos em que não se registou a execução daquilo que estava planeado. Apesar das apresentações públicas do projeto, uma delas em agosto de 2025 e a última na semana passada, por iniciativa da Associação de Turismo Sustentável do Faial, que aproveito para louvar com elevado orgulho pelo trabalhão realizado por esta associação em prol da ilha do Faial, a realidade no terreno continua praticamente inalterada.

Importa sublinhar que o projeto previsto para a Trinity House não se limita à criação de um espaço expositivo. Trata-se de uma iniciativa mais abrangente, que contempla áreas de investigação, conservação e restauro, bem como espaços de apoio à atividade cultural local. Acresce ainda a importância de valorizar um tema há muito debatido e reconhecido como estruturante para a identidade da ilha, a história do porto da Horta e o seu papel nas ligações atlânticas.

A concretização deste projeto teria um impacto significativo não apenas ao nível da preservação da memória, mas também no reforço da oferta cultural e turística da ilha do Faial. Num território onde o turismo assume um papel crescente, a criação de novos espaços de visitação qualificados é fundamental para diversificar a experiência de quem nos visita e valorizar os recursos existentes. Ao mesmo tempo, trata-se de um investimento na educação cultural das gerações futuras, garantindo que esta herança não se perde.

Mais do que novos anúncios, importa clarificar de forma transparente quais são as linhas de financiamento disponíveis, definir um calendário realista para a intervenção e assumir este projeto como uma prioridade efetiva. Era pelo menos isto que eu esperava que tivesse acontecido nesta última apresentação do projeto, considerando até a presença da Diretora Regional da Cultura, que questionada sobre este projeto, pouco ou nenhuma esperança nos deixou.

A cidade da Horta e a ilha do Faial têm aqui uma oportunidade concreta de ganhar um novo espaço de referência, capaz de unir memória, cultura e desenvolvimento económico. Mas essa oportunidade está, indefinida e lamentavelmente, suspensa no tempo. Por quanto tempo mais, é a pergunta que se impõe, e que cabe a quem governa responder.